segunda-feira, junho 22, 2015



"O fulgor das suas memórias, todavia, era demasiado ténue(...). Passaram ao lado um do outro sem trocar palavra, e desapareceram por entre a multidão em direcções opostas, para sempre.   Uma história triste, não lhe parece?


    Sim, era isso mesmo que eu lhe deveria ter dito.”




***



   E uma vez mais, aquele autor a surpreendia. 
  O segundo que se seguiu à leitura da última frase na página 78 do livro, carinhosamente, comprado na famosa Feira do Livro, pareceu ficar suspenso no ar artificial e sufocante da carruagem do metro. Susteve a respiração após um suspiro, maravilhada com o poder da ordem das palavras em determinados contextos.
    - Uau!… - Sussurou baixinho enquanto esboçava sorrisos, sem perceber que estava a expressar por palavras a sua surpresa perante estranhos.
   Embrenhada na leitura, não ouviu a simpática voz-off a anunciar a próxima e esperada paragem “Parque”. Durante os 365 dias do ano, aquela estação em particular, servia-lhe de destino, durante aproximadamente duas semanas, com um único propósito. Após enfrentada a escadaria rolante, lembrete das suas medonhas vertigens, em jeito de Alice num buraco invertido, o seu topo anunciava o portal para o Parque das Maravilhas, ou para a mais conhecida e preferida, senão única e desejada Feira do Livro.
    Este ano, inesperadamente, utilizava a estação Azul da Fantasia, uns meses mais cedo que o esperado.

     - Azul!? Estás no Parque! Tens que sair!… - gritou-lhe a voz interior que tantas vezes a salvava do embaraço devido às suas viagens ao imaginário. 
    Enquanto tentava furar a multidão da lagarta até à porta de saída, que já estilhava os tão conhecidos três apitos de aviso de fecho de portas, arrumava, atrapalhada, o livro na sua gigante bolsa, que por vezes se fazia parecer com o chapéu de um mágico. 
    Com um pé fora e o outro dentro da carruagem, o saco cede espaço ao seu mais actual portal mágico e ela suspira de alívio por sair a tempo. Enquanto isso, o seu olhar deixa de focar o poço que é a bolsa para procurar as escadas de acesso ao Parque. Não queria de modo algum chegar atrasada. Nisto, sem dar conta no imediato, ouve: 
   - Mas que surpresa!… - sussurra uma voz vinda de alguém que aguardava a paragem do comboio e que, claramente, não contava ver um alguém conhecido áquela hora da manhã. Uma voz grave e calma. Seca, mas não áspera, quase doce, absolutamente sensual, acompanhada de um franco sorriso, podia escutar-se. Uma voz de alguém que articula bem as palavras, demonstrando ser um bom falante, habituado ao discurso. Uma voz estranhamente familiar. Mas tão estranha, que seria quase impossível surgir a possibilidade de a voltar a ouvir na sua vida. Muito menos naquele dia, naquela hora, naquele local. 
    Não hoje.

   Depois de processado o inesperado acontecimento, já os seus pés alcançavam os degraus da escadaria de acesso à saída. 
   Valeria a pena olhar para trás e confirmar o que o seu coração lhe dizia sobre o que os seus ouvidos teriam escutado? - perguntava-lhe a sua amiga voz interior.
  A vida era repleta de surpresas. Umas vezes boas, outras vezes más. Era uma certeza adquirida recentemente na sua vida, sem sombra para dúvidas. Mas, logo hoje?!…
   Não. Hoje não havia tempo para fantasia, mesmo estando na estação mais encantada de todas.
   Sem olhar para trás e com aquela voz a entoar na sua cabeça, lá subiu as escadas entre a multidão, corajosamente. De volta à superfície, onde um novo capítulo estava por escrever.


Texto by Lali

segunda-feira, junho 01, 2015

Recomecemos



O ódio e o amor iguais nos buscam; 
ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.

Foto by: Lali
Texto: Ricardo Reis

sábado, maio 30, 2015

Murakami no seu melhor

"Ao veR A RAPariGa CEM POR cento Perfeita nuMA BELa manhã de ABril"

   "Numa bela manhã de Abril, cruzei-me com a rapariga cem por cento perfeita ao passar por uma rua menos movimentada do cosmopolita bairro de Harajuku, no centro de Tóquio.
   Para dizer a verdade, ela não era assim tão bonita quanto isso, nem se pode dizer que fosse chamativa. A roupa que trazia vestida não tinha nada de especial. A parte de trás dos cabelos, junto à nuca, ainda apresentava marcas de quem acabara de se levantar da cama. Também não era propriamente nova - devia ter os seus trinta anos, daí que talvez já não fosse correcto chamar-lhe rapariga. Mesmo assim, ainda nos separavam cinquenta metros e eu já tinha percebido que era ela a miúda cem por cento perfeita para mim. A partir do momento em que a vi, o meu coração começou a vibrar como se estivesse a haver um tremor de terra e a minha boca ficou seca como a areia de um deserto.(...)
   - Ontem na rua passei pela rapariga cem por cento perfeita - digo a um rapaz amigo.
   - Ai sim? - respondeu-me ele. - Era muito bonita?
   - Nem por isso.
   - O teu género, neste caso?
   - Não tenho a certeza. Esqueci-me de tudo o que lhe diz respeito, não te sei dizer qual era o formato dos seus olhos, se tinha seios pequenos ou grandes...
   - Estranho.
   - Podes crer.
   - E então? - quis saber o meu interlocutor com um ar sério. - Falaste com ela? Seguiste-a?
   - Não, cruzamo-nos e foi tudo.
   Ela caminhava vinda de leste em direcção a oeste, e eu seguia o meu caminho de oeste para leste. Estamos a falar de uma manhã de Abril mesmo muito agradável.
   Confesso que gostaria de ter chegado à fala com ela. Nem que fosse por uma meia hora, só para ficar a saber qualquer coisa a seu respeito, para dizer quem eu era.(...) Semelhante hipótese não deixou de bater à porta do meu coração, confesso.
   Entretanto, a distância entre nós os dois ficara reduzida a uma quinzena de metros.(...)
   Talvez fosse melhor ir pela verdade.
   - Bom dia. Deixe-me dizer-lhe que é a rapariga cem por cento perfeita para mim.
   Não, ela não teria acreditado em mim. Ou então, mesmo que tivesse, havia grandes hipóteses de não querer falar comigo.(...)
   Passámos à frente de uma loja de flores. Um leve sopro de ar tépido acariciou-me a pele. O asfalto do passeio estava húmido, e até mim chegou o perfume das rosas. Não há maneira de me decidir a falar com ela. Trazia uma camisola branca vestida, e, na mão esquerda, um subscrito branco ao qual faltava apenas o selo. Quer então dizer que ela tinha escrito a alguém. Mais, que passara a noite a escrever aquela carta, a julgar pelo olhar terrivelmente ensonado. Quem sabe se aquele envelope não encerraria todos os seus segredos?
   Dei mais uns passos e, quando me voltei ela já tinha desaparecido no meio da multidão.


   Passado este tempo, naturalmente que sei o que lhe devia ter dito ao abordá-la. De qualquer modo, levando em conta o tamanho do meu discurso, demasiado longo, não teria funcionado como deve ser. As ideias que me vêm à cabeça revelam-se sempre pouco práticas.
   Em todo o caso, o meu discurso poderia ter começado por "era uma vez" e terminado com "uma história muito triste, não acha?"


***

   Era uma vez um rapaz e uma rapariga que viviam num país distante. (...) Eram apenas dois jovens solitários, à imagem e semelhança de tantos outros. Com a diferença de que cada um deles acreditava piamente que, algures no mundo, existia o rapaz e a rapariga cem por cento perfeitos para eles. Sim, acreditavam num milagre. E o milagre tornou-se realidade.
   Um dia, caminhando pela estrada, encontraram-se os dois a meio caminho.
   - Espantoso - disse ele. - Tenho andado à tua procura desde que me lembro. Podes não acreditar, mas tu és a rapariga cem por cento perfeita para mim.
  - E tu, o rapaz cem por cento perfeito para mim - observou ela. - És exactamente como te imaginava, em tudo. Tenho a impressão de estar a viver um sonho.
   Sentaram-se os dois num banco do parque e ficaram horas infinitas a trocar confidências. Já não estavam sozinhos no mundo.(...) Seria de esperar que um sonho se tornasse realidade assim tão facilmente?
   - Vamos pôr-nos à prova - sugeriu o jovem à rapariga a dado momento, aproveitando uma pausa na conversa. - Se é verdade que somos realmente cem por cento perfeitos um para o outro, de certeza que um dia nos encontraremos de novo em qualquer parte. E quando nos voltarmos a ver, saberemos então que somos feitos um para o outro, na perfeição, e casaremos logo. Estás de acordo?
   - Sim, de acordo - respondeu ela - , é exactamente isso que devemos fazer.
   E foi nesses termos que os dois se separaram e foi cada um para seu lado; ela partiu em direcção a oriente e ele ao ocidente.
   Aquele teste, contudo anunciava-se absolutamente inútil, e eles nunca o deveriam ter levado por diante.(...)
   Certo Inverno, quer o rapaz e a rapariga apanharam uma terrível gripe que na altura fazia muitas vítimas, e passaram várias semanas entre a vida e a morte. Uma vez recuperados da maleita, verificaram que tinham perdido a memória dos primeiros anos.(...) Graças aos deuses, voltaram, quer um quer outro, a ser capazes apanhar o metro e de mudar de linha, de se dirigirem aos correios a fim de enviarem uma carta registada. E até souberam o que era amar de novo, num ou noutro caso com setenta e cinco por cento ou ate mesmo oitenta e cinco por cento de êxito.
   O tempo passou com uma rapidez impressionante.(...)
   
Numa bonita manhã de Abril, o rapaz caminhava pelas ruas da cidade, vindo de oeste e em direcção a leste, à procura de um sítio onde pudesse beber um café para começar bem o dia, ao mesmo tempo que a rapariga percorria  a rua, mas no sentido de oeste para leste, com o propósito de ir aos correios enviar uma carta urgente. Cruzaram-se a meio caminho. Por um breve instante, o brilho fugaz das recordações perdidas iluminou os seus corações. Tanto um como outro sentiram o mesmo.
   "É a rapariga cem por cento perfeita para mim", pensou ele.
   "É o rapaz cem por cento perfeito para mim", pensou ela.
   O fulgor das suas memórias, todavia, era demasiado ténue(...). Passaram ao lado um do outro sem trocar palavra, e desapareceram por entre a multidão em direcções opostas, para sempre.
   Uma história triste, não lhe parece?



   Sim, era isso mesmo que eu lhe deveria ter dito."


Haruki Murakami, O Elefante Evapora-se, Casa das Letras

Welcome back


domingo, setembro 01, 2013

To Be Or Not



Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Fernando Pessoa

terça-feira, julho 23, 2013

And that's it...she's 30, already...



Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Mílton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...
Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

domingo, julho 14, 2013

Cada Coisa...


Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.
À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.
À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,
E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do Sol) —
Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem
Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.
E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos
Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.

Ricardo Reis - Pessoa

sábado, julho 13, 2013

Em linha


Gozo Sonhado



Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Nós o que nos supomos nos fazemos,
Se com atenta mente
Resistirmos em crê-lo.
Não, pois, meu modo de pensar nas coisas,
Nos seres e no fado me consumo.
Para mim crio tanto
Quanto para mim crio.
Fora de mim, alheio ao em que penso,
O Fado cumpre-se. Porém eu me cumpro
Segundo o âmbito breve
Do que de meu me é dado.

Ricardo Reis

sábado, maio 18, 2013

Mistério


O mistério do mundo,
O íntimo, horroroso, desolado,
Verdadeiro mistério da existência,
Consiste em haver esse mistério.
...

Não é a dor de já não poder crer
Que m’oprime, nem a de não saber,
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente,
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
...

Quanto mais fundamente penso, mais
Profundamente me descompreendo.
O saber é a inconsciência de ignorar...

Só a inocência e a ignorância são
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem o saber? Ser, como a pedra,
Um lugar, nada mais.
...

Quanto mais claro
Vejo em mim, mais escuro é o que vejo.
Quanto mais compreendo
Menos me sinto compreendido. Ó horror
paradoxal deste pensar...
...

Alegres camponesas, raparigas alegres e ditosas,
Como me amarga n’alma essa alegria!

Fernando Pessoa

quarta-feira, maio 08, 2013

Procura-se um Amigo



Procura-se um amigo
...
"Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar. 

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. 

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. 

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive."

Vinicius de Moraes

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

As maravilhas de Alice




Não digas nada! 
Nem mesmo a verdade 
Há tanta suavidade em nada se dizer 
E tudo se entender — 
Tudo metade 
De sentir e de ver... 
Não digas nada 
Deixa esquecer 

Talvez que amanhã 
Em outra paisagem 
Digas que foi vã 
Toda essa viagem 
Até onde quis 
Ser quem me agrada... 
Mas ali fui feliz 
Não digas nada. 


Poema by: Fernando Pessoa.Cancioneiro
Photo by: Lali

domingo, janeiro 20, 2013

Às vezes...



Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,

Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,

Pergunto a mim próprio devagar

Porque sequer atribuo eu

Beleza às coisas.



Uma flor acaso tem beleza?

Tem beleza acaso um fruto?

Não: têm cor e forma

E existência apenas.

A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe

Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.

Não significa nada.

Então porque digo eu das coisas: são belas?



Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,

Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens

Perante as coisas,

Perante as coisas que simplesmente existem.



Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!


Texto de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
Foto de Sofia Martins Baleia (Lali)

quarta-feira, janeiro 02, 2013

segunda-feira, dezembro 10, 2012

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Que chegue o Dilúvio...



Que ele venha.
Que arraste consigo,
tudo o que há para limpar, de impuro.
Os homens, que de humanos já têm pouco.
Poupando os verdadeiros animais.

Que o dilúvio venha,
Mas apressado.
Que a espera já vai longa,
A calma é escassa,
E o sossego do espírito desassossega.

Que chegue o dilúvio,

Para logo de seguida
eu poder, enfim, partir.

Que tudo se finda,

Das águas cinzentas,
repletas de salivas sujas,
rótulos,
Frases feitas
desígnios obscuros.

Que se finde este mundo, Mundano.
de uma,
só,
vez.

terça-feira, outubro 23, 2012

segunda-feira, agosto 06, 2012

segunda-feira, julho 23, 2012

sexta-feira, julho 13, 2012

Não sei quem sou...



"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou váriamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpétuamente me ponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."

Fernando Pessoa, in 'Para a Explicação da Heteronímia'

sexta-feira, junho 29, 2012

quinta-feira, junho 28, 2012

quinta-feira, junho 14, 2012

sexta-feira, maio 25, 2012

Illuminati


"Como se pode amar a Lua depois de conhecer o Sol?"


quinta-feira, maio 24, 2012

Feeling


Para ser grande, sê inteiro
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Ricardo Reis

domingo, maio 20, 2012

Stairways to Heaven

...Rrrrrrrrr...de Arreliar


"Fernando Pessoa

[Carta a Ophélia Queiroz - 9 Out. 1929]

Bebé fera:
Peço desculpinha de a arreliar. Partiu-se a corda do automóvel velho que trago na cabeça, e o meu juízo, que
já não existia, fez tr-tr-r-r-r-...
Logo a seguir a telefonar-lhe, estou a escrever-lhe, e naturalmente telefonarei outra vez, se lhe não faz mal aos nervos, e naturalmente será, não a qualquer hora, mas à hora em que lhe telefonarei.
Gosta de mim por mim ser mim ou por não? Ou não gosta mesmo sem mim nem não? Ou então?
Todas estas frases, e maneiras de não dizer nada, são sinais de que o ex-Ibis, o extinto Ibis, o Ibis sem concerto nem gostosamente alheio, vai para o Telhal, ou para Rilhafolles, e lhe é feita uma grande manifestação à magnífica ausência.
Preciso cada vez mais de ir para Cascais — Boca do Inferno mas com dentes , cabeça para baixo, e fim, e pronto, e não há mais Ibis nenhum. E assim é que era para esse animal ave esfregar a fisionomia esquisita no chão.
Mas se o Bebé desse um beijinho, o Ibis aguentava a vida um pouco mais. Dá? — Lá está a corda partida -r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-
a valer
9/10/1929
Fernando
9-10-1929
Cartas de Amor.
 Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994).  - 45."


Fonte: http://arquivopessoa.net/textos/3703

Desaparecidas

Resquícios

sexta-feira, maio 18, 2012

sábado, maio 05, 2012

quinta-feira, abril 26, 2012

domingo, abril 22, 2012

sábado, março 31, 2012

sexta-feira, março 23, 2012

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

A brake heart

Quem me dera não ser o que sou...

Amostras

Possível capa...

terça-feira, fevereiro 28, 2012

Santiago

Onde tudo está a tomar forma...

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Shoes


Tem dias que não é fácil...

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

segunda-feira, janeiro 16, 2012

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Somos Pessoa

Já mais que uma vez citei Pessoa por aqui.
Ainda não entendi se por gosto ou semelhança, lá me vou reflectindo no senhor.
E nestes dias vagueando pela Fnac do Chiado, dou de caras com este livro que me paralisou as pernas como que um encantamento.
Belo trabalho este!


Vaga, no Azul Amplo Solta

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

domingo, janeiro 08, 2012

O resto é mar...

Mal eu sabia que poucos mais de 7 dias passados após o meu nascimento ocorreriam coisas bonitas como esta...

sexta-feira, janeiro 06, 2012

Nas maiores atrocidades...

Photo by: Lali - 2009

É o que o meu guia espiritual me diz ao ouvido...
...mas tenho andado surda que nem uma porta!

segunda-feira, dezembro 19, 2011

What?...


Solarengo por fora, gelado por dentro, é o estado de algumas tristes almas...


Porque não 
poderemos 
nós
 ter 
um Mundo 
Maravilhoso?


quarta-feira, dezembro 14, 2011

Cá estamos...



...
Venham as avaliações!


By Lali - 2007



sexta-feira, dezembro 09, 2011

Really?...



Continuação...



...do meu serão de ontem...
(ADORO...casas de fados)

quarta-feira, dezembro 07, 2011

domingo, dezembro 04, 2011

Círculos

A vida é feita deles...

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Antes neve que chuva


Antes a Neve...
Para que não restem dúvidas...
Photo by: Lali


quarta-feira, novembro 30, 2011

quarta-feira, novembro 23, 2011

Pombos



Pombos, só vê-los a correr e quanto menos melhor...
Acontece-me com pessoas, também, curiosamente!